JURA EM PROSA E VERSO

TUDO SOBRE...

TUDO SOBRE BUDISMO

Budismo

O Budismo é a religião pregada pelo Buda, um Príncipe hindu, de aproximadamente três mil anos atrás, quando a Índia era o berço de uma brilhante civilização, igualável à da Grécia antiga. 

O  Rei, pai de Buda, deu-lhe todos os meios para gozar a vida e todas as diversões da época, mas ele preferiu meditar sobre como enfrentar os sofrimentos inevitáveis como: o nascimento, a velhice, a doença e a morte. Praticou então toda sorte de penitências, levando uma vida de meditação. 

Porém, percebeu que era inútil tentar obter a liberdade espiritual martirizando o corpo, pois seria contra a natureza humana. Após meditação e reflexão de longa data descobriu a verdade eterna e pregou durante 50 anos, dos seus 80 anos de existência, ensinamentos que são chamados de Sutras.

Buda ensina que descobriu a verdade e não a inventou e que, logo, qualquer pessoa poderá, também, descobrir seguindo seus ensinamentos. O que significa que a verdade já existia desde o início das épocas, tal como o átomo, mas que somente foi descoberta aos poucos e lentamente. E, quando se descobre , você tem a certeza de que ela faz parte de ti e que você pode representá-la.

Crer em Buda, não significa crer e adorar a sua imagem, mas sim a verdade que ele descobriu e que constitui a Lei da Natureza. Esta crença que tem por centro as Leis da Natureza é que se denomina NAMU-MYOU-HOU-REN-GUE-KYOU.

Ao descobrir esta Lei Eterna da Natureza, Buda passou por inacreditáveis sofrimentos. Na época muitos estudavam, arduamente, para obter os ensinamentos que apresentaremos a seguir:

Resumindo a descoberta do Buda, podemos dizer: "isto existe porque ele existe, ele existe porque isto existe." A esta relação dá-se o nome de "en-gui" (Leia da Interdependência ou Ciclicidade Universal). Fazemos parte desta relação e o Namumyouhourenguekyou nos reintegra a essa natureza universal.

Para que exista o desabrochar de uma flor, e possamos nos deleitar diante de sua beleza, é necessário que se tenha terra e semente. Na realidade o principal fator que contribui para um belo desabrochar é a condição climática. Neste caso a terra e a semente são " IN ", ou seja , a causa direta e a primavera será o " EN ", ou seja, a condição indireta para o belo desabrochar. Tudo indica que na vida somos dependentes do “IN” e do “EN”, isto é, somos dependentes do ciclo da causa e da condição.

Notamos que, com as nossas possibilidades, preparando corretamente todas as causas diretas, no "momento certo", o resultado será uma conseqüência natural e infalível. Nosso esforço estará sempre voltado para o "IN" enquanto que do "EN", que está fora de nosso domínio e poder, a nossa fé cuidará.

Na oração do Namumyouhourenguekyou encontra-se compactada toda a causa e a essência para o nosso desabrochar humano, mesmo que todas as circunstâncias externas sejam aparentemente adversas. Buda ensina que devemos pensar sempre nessas facetas, conjuntamente, para conhecermos a verdade.

Como seres humanos estamos sempre à procura da felicidade e procuramos nos desviar dos sofrimentos e das tristezas. Em se tratando de doença, verificamos que graças à existência da dor ficamos sabendo que estamos doentes, quando então chamamos um médico para nos examinar e localizar a causa. Se não sentíssemos a dor, a doença progrediria até nos fazer sucumbir.

 

Portanto:

1º A existência de dor nos possibilita chamar um médico, de imediato.

2º Inicia-se o tratamento e ficamos ansiosos pela cura.

3º Suportamos todo tipo de tratamento, por mais penoso que seja.

4º Uma vez curados, tomamos precauções para não haver recaída ou para não contrairmos novamente a doença.

Buda faz com que o homem perceba as dificuldades da vida para que conheça a verdadeira felicidade. O homem fortalece seu caráter através do sofrimento, como uma condição inevitável à aquisição e acúmulo de virtudes. Ensina-nos como enfrentá-lo e para isso procura indagar a causa do sofrimento através do passado. A seguir, ensina qual a atitude a tomar no presente e esclarece a conseqüência futura. Mostra-nos qual o caminho a trilhar em nosso desconhecido mundo, porém, o mesmo em que deveremos encontrar a plena e mútua felicidade.

Quem Foi Buda

O termo "Buda" é um título, não um nome próprio.

 Significa "aquele que sabe", ou "aquele que despertou", e se aplica a alguém que atingiu um superior nível de entendimento e a plenitude da condição humana. 

Foi aplicado, e ainda o é, a várias pessoas excepcionais que atingiram um tal grau de elevação moral e espiritual que se tranformaram em mestres de sabedoria no oriente, onde se seguem os preceitos budistas. 

Porém o mais fulgurante dos budas, e também o real fundador do budismo, foi um ser de personalidade excepcional, chamado Sidarta Gautama. Siddharta Gautama, o Buddha, nasceu no século VI a. C. (em torno de 556 a. C.), em Kapilavastu, norte da Índia, no atual Nepal. Ele era de linhagem nobre, filho do rei Suddhodana e da rainha Maya.

 Logo depois de nascido, Sidarta foi levado a um templo para ser apresentado aos sacerdotes, quando um velho sábio, chamado Ansita, que havia se retirado à uma vida de meditação longe da cidade, aparece, toma o menino nas mãos e profetiza: "este menino será grande entre os grandes. Será um poderoso rei ou um um mestre espiritual que ajudará a humanidade a se libertar de seus sofrimentos".

Suddhodana, muito impressionado com a profecia, decide que seu filho deve seguir a primeira opção e, para evitar qualquer coisa que lhe pudesse influenciar contrariamente, passa a criar o filho longe de qualquer coisa que lhe pudesse despertar qualquer interesse filosófico e espiritual mais aprofundado, principalmente mantendo-o longe das misérias e sofrimentos da vida que se abatem sobre o comum dos mortais. 

Para isso, seu pai faz com que viva cercado do mais sofisticado luxo. 

Aos dezesseis anos, Sidarta casa-se com sua prima, a bela Yasodhara, que lhe deu seu único filho, Rahula, e passa a vida na corte, desenvolvendo-se intelectual e fisicamente, alheio ao convívio e dos problemas da população de seu país. Mas o jovem príncipe era perspicaz, e ouvia os comentários que se faziam sobre a dura vida fora dos portões do palácio. 

Chegou a um ponto em que ele passou a desconfiar do porquê de seu estilo de vida, e sua curiosidade ansiava por descobrir por que as referências ao mundo de fora pareciam ser, às vezes, carregadas de tristeza. 

Contrariamente à vontade paterna - que tenta forjar um meio de Sidarta não perceber diferença alguma entre seu mundo protegido e o mundo externo -, o jovem príncipe, ao atrevessar a cidade, se detém diante ante a realidade da velhice, da doença e da morte. Sidarta entra em choque e profunda crise existencial. 

De repente, toda a sua vida parecia ser uma pintura tênue e mentirosa sobre um abismo terrível de dor, sofrimento e perda a que nem mesmo ele estava imune. Sua própria dor o fez voltar-se para o problema do sofrimento humano, cuja solução tornou-se o centro de sua busca espiritual. 

Ele viu que sua forma de vida atual nunca poderia lhe dar uma resposta ao problema do sofrimento humano, pois era algo artificialmente arranjado. Assim, decidiou, aos vinte e nove anos, deixar sua família e seu palácio para buscar a solução para o que lhe afligia: o sofrimento humano. 

Sidarta, certa vez, em um dos seus passeios onde acabara de conhecer os sofrimentos inevitáveis do homem, encontrara-se com um monge mendicante. Ele havia obervardo que o monge, mesmo vivendo miseravelmente, possuia um olhar sereno, como de quem estava tranquilo diante dos revezes da vida. Assim, quando decidiu ir em busca de sua iluminação, Gautama resolveu se juntar a um grupo de brâmanes dedicados a uma severa vida ascética. Logo, porém, estes exercícios mortificadores do corpo demonstraram ser algo inútil. 

A corda de um instrumento musical não pode ser retesada demais, pois assim ela rompe, e nem pode ser frouxa demais, pois assim ela não toca. Não era mortificando o corpo, retesando ao extremo os limites do organismo, que o homem chega à compreensão da vida. Nem é entregando-se aos prazeres excessivamente que chegará a tal. 

Foi ai que Sidarta chegou ao seu conceito de O Caminho do Meio : buscar uma forma de vida disciplinada o suficiente para não chegar à completa indulgência dos sentidos, pois assim a pessoa passa a ser dominada excessivamente por preocupações menores , e nem à autotortura, que turva a consciência e afasta a pessoa do convívio dos seus semelhantes. 

A vida de provações não valia mais que a vida de prazeres que havia levado anteriormente. Ele resolve, então, renunciar ao ascetismo e volta a se alimentar de forma equilibrada. Seus companheiros, então, o abandonam escandalizados. Sozinho novamente, Sidarta procura seguir seu próprio caminho, confiando apenas na própria intuição e procurando se conhecer a si mesmo. 

Ele procurava sentir as coisas, evitando tecer qualquer conceitualização intelectual excessiva sobre o mundo que o cercava. 

Ele passa a atrair, então, pessoas que se lhe acercam devido a pureza de sua alma e tranquilidade de espírito, que rompiam drasticamente com a vaidosa e estúpida divisão da sociedade em castas rígidas que separavam incondicioanalmente as pessoas a partir do nascimento, como hoje as classes sociais e dividem estupidamente a partir da desigual divisão de renda e, ainda mais, de berço. 

Diz a lenda - e lendas, assim como mitos e parábolas, resumem poética e figuradamente verdades espirituais e existenciais - que Sidarta resolve meditar sob a proteção de uma figueira, a Árvore Bodhi. Lá o demônio, que representa simbolicamente o mundo terreno das aparências sempre mutáveis que Gautama se esforçava por superar, tenta enredá-lo em dúvidas sobre o sucesso de sua tentativa de se por numa vida diferente da de seus semelhantes, ou seja, vem a dúvida sobre o sentido disso tudo que ele fazia. Sidarta logo se sai dessa tentativa de confundí-lo com a argumentação interna de que sua vida ganhou um novo sentido e novos referenciais com sua escolha, que o faziam centrar-se no aqui e agora sem se apegar a desejos que lhe causaria ansiedade. 

Ele tinha tudo de que precisava, como as aves do céu tinham da natureza seu sutento, e toda a beleza do mundo para sua companhia. Mas Mara, o demônio, não se deu por vencido, e, ciente do perigo que aquele sujeito representava para ele, tenta convencer Sidarta a entrar logo no Nirvana - estado de consciência além dos opostos do mundo físico - imediatamente para evitar que seus insights sobre a vida sejam passados adiante. 

Aí é possível que Buda tenha realmente pensado duas vezes, pois ele sabia o quanto era difícil as pessoas abandonarem seus preconceitos e apegos a um mundo resumido, por elas mesmas, a experiências sensoriais. 

Tratava-se de uma escolha difícil para Sidarta: o usufruto de um domínio pessoal de um conhecimento transcendente, impossível de expor facilmente em palavras, e uma dedicação ao bem-estar geral, entre a salvação pessoal e uma árdua tentativa de partilhar o conhecimento de uma consciência mais elevada com todos os homens e mulheres.

 Por fim, Sidarta compreendeu que todas as pessoas eram seus irmãos e irmãs, e que estavam enredaddos demais em ilusórias certezas para que conseguissem, sozinhos, uma orientação para onde deviam ir. Assim, Sidarta, o Buda, resolve passar adiante seus conhecimentos.

 Quando todo o seu poder argumentativo e lógico de persuasão falham, Mara, o mundo das aparências, resolve mandar a Sidarta suas três sedutoras filhas: Desejo, Prazer e Cobiça, que apresentam-se como mulheres cheias de ardor e ávidas de dar e receber prazer, e se mostram como mulheres em diferentes idades (passado, presente e futuro). 

Mas Sidarta sente que atingiu um estágio em que estas coisas se apresentam como ilusórias e passageiras demais, não sendo comparáveis ao estado de consciência mais calma e de sublime beleza que havia alcançado. Buda vence todas as tentativas de Mara, e este se recolhe, à espreita de um momento mais oportuno para tentar derrotar o Buda, perseguindo-o durante toda a sua vida como uma sombra, um símbolo do extremo do mundo dos prazeres. 

Sidarta transformou-se no Buda em virtude de uma profunda transformação interna, psicológica e espiritual, que alterou toda a sua perspectiva de vida. "Seu modo de encarar a questão da doença, velhice e morte mudo porque ele mudou" (Fadiman & Frager, 1986). 

Tendo atingido sua iluminação, Buda passa a ensinar o Dharma, isto é, o caminho que conduz à maturação cognitiva que conduz à libertação de boa parte do sofrimento terrestre. Eis que o número de discípulos aumenta cada vez mais, entre eles, seu filho e sua esposa. Os quarenta anos que se seguiram são marcadas pelas intermináveis peregrinações, sua e de seus discípulos, através das diversas regiões da Índia. Quando completa oitenta anos, Buda sente seu fim terreno se aproximando. Deixa instruções precisas sobre a atitude de seus discípulos a partir de então: "Por que deveria deixar instruções concernetes à comunidade? Nada mais resta senão praticar, meditar e propagar a Verdade por piedade do mundo, e para maior bem dos homens e dos deuses. Os mendicantes não devem contar com qualquer apóio exterior, devem tomar o Eu - self - por seguro refúgio, a Lei Eterna como refúgio... e é por isso que vos deixo, parto, tendo encontrado refúgio no Eu". 

Buda morreu em Kusinara, no bosque de Mallas, Índia. Sete dias depois seu corpo foi cremado e suas cinzas dadas as pessoas cujas terras ele vivera e morrera.

O Budismo na Modernidade e no Brasil

 

A modernidade está envolta em tecnologia, racionalismo e materialismo. Como se soubesse deste perigo, Buda deixou ensinamentos e métodos de prática que proporcionam a felicidade, mesmo em circunstâncias adversas à iluminação. Estes ensinamentos estão nos capítulos de 15 a 22 do Sutra Lótus que falam da fé e de compaixão (solidariedade) como práticas fundamentais.

A própria Flor de Lótus é um símbolo disso. 

Ela desabrocha em mangues e nem por isso a flor se macula com as impurezas do local. 

O mundo impuro seria este em que vivemos, tomados pelos três venenos, e a Flor de Lótus é a prática transformadora na fé e na compaixão, em sintonia com Buda. Assim essa flor jamais se manchará. É importante salientar que esta flor possui a característica de desabrochar junto com a semente do próximo fruto. Portanto se perpetua, assim como deve se perpetuar e gerar frutos as práticas dos budistas.

Desta forma, podemos concluir que o Buda, como uma mera imagem, não é alvo de veneração, assim como ele próprio ressaltou. A grande contribuição do Budismo para o mundo neste novo milênio é a concepção não fragmentada de ser humano, que prioriza o "Ser" independente da sua imperfeição e que têm como meta: "orar pela harmonia do universo, através da prática das virtudes, do aprimoramento espiritual e da solidariedade dos seres".

Devemos compreender também que o Budismo deve se vincular diretamente aos ensinamentos de Buda e não das interpretações dos fundadores das facções ou de seus seguidores. A religião budista é exclusivamente fundada pelo Buda primordial e fundamentada pelos ensinos primordiais.

Buda deixou oitenta e quatro mil ensinamentos, mas segundo ele mesmo falou, a essência da doutrina está no ensinamento do Sutra Lótus. Este texto começa dizendo:

"As portas da iluminação se abrirão para todos, indiscriminadamente, com uma única condição: a fé e a compaixão" fé como sentimento que nos une através da essência, e compaixão como atividade que nos une através da prática e vivificação desta essência.

Portanto, a religião budista não é meramente filosofia ou um exercício como algumas vezes é interpretada, mas sim algo que parte da experiência religiosa e atinge a prática, na vida de qualquer um.

O mundo continuará a se transformar, porém, as pessoas também precisarão da transformação no universo do espírito com uma conseqüente prática transformadora. Isto não significa tornar-se um super-homem, mas num verdadeiro homem de fé e de compaixão, que desempenha, com afinco, suas atividades neste único e real momento.

Buda Primordial

O Buda Primordial (Kuon no Honbutsu) como o próprio nome diz é "Primordial" é "Original". Não tem começo nem fim. É a divindade única que rege o cosmos e que na história da humanidade, no momento da pregação dos Oito Primeiros Capítulos do Caminho Primordial do Sutra Lótus (Honmon Happon e somente durante este trecho) através do corpo físico do Buda Histórico revelou sua existência, identidade e acima de tudo, pessoalmente nos transmitiu os ensinamentos.

Portanto, podemos dizer que vimos pessoalmente a divindade e que, pela soberba compaixão e presença fez da Terra a Terra Pura ao nos pregar os ensinamentos (o Namumyouhoureguekyou) fez de nós os seres mais privilegiados dentre os seres.

Já o Buda Histórico, dentre incontáveis mundos do universo é o Buda encarregado (pelo Buda Primordial) aqui da terra. É claro que é uma emancipação do Buda Primordial, ou seja, uma manifestação física e transitória que nasceu com a missão de nos ensinar sob a mesma forma "humana" e passando pelos mesmos obstáculos mundanos, conseguiu atingir a iluminação e, principalmente expandi-Ia.

Justamente por ser transitório não é correto tê-lo como objeto de veneração. Justamente por isso que nos templos da Butsuryu-Shu não existem estátuas de Buda , ao contrário de tantos outros templos budistas. Não podemos venerar algo temporário, sujeito a mutabilidade e, por mais iluminado que seja, essa iluminação não pode ter acontecido agora pela primeira vez.

A forma de venerarmos o Buda Primordial é venerando-o na sua forma espiritual , a do Gohonzon. Não na estátua de Buda, pois o próprio Buda baniu tal forma de devoção. Toda vez que oramos o Odaimoku incorporamos o Buda Primordial e recebermos a virtude da sua iluminação.

A Prática da Fé Shugyo significa uma incansável pratica, e estudo, de uma determinada matéria religiosa. Shu – incorporar em si aquilo que experimentou. Gyo – andar para frente levantando alternadamente cada perna. Resumimos como prática da fé.

Aquele que pratica a fé é um fiel que, através da prática, desperta seu Buda interior, reunindo-se, assim, a sua essência original e divina. Se é fácil ou difícil não é a questão. O que importa é que é possível, que Buda nos demonstrou essa possibilidade, deixando-nos meios e ensinamentos para superarmos todas as dificuldades, as quais ele mesmo passou. Em uma de nossas orações temos a mensagem seguinte:

“Rogo para que vida após vida, mundo após mundo, converta todos os seres e que jamais por toda a eternidade abandone a prática da fé” assim, nos conscientizamos de que somente a prática da fé, ininterrupta, poderá concluir essa prece e juramento. Curiosamente, esta oração é feita antes das refeições, com o seguinte significado. Tendo a gratidão pelo alimento como algo obviamente fortificante, claro, deverá demonstra-la no cumprimento da razão de estar se alimentando. Nosso corpo se fortalece, fisicamente, pela ingestão do alimento que nos é concedido, para lutarmos, nitidamente, pela felicidade dos seres e nosso espírito se fortalece na prática incansável da pronúncia e do trabalho pe-

lá expansão do Namumyohourenguekyo.

A prática da fé não depende da cultura de um indivíduo. Existem pessoas que são conhecedoras profundas da filosofia budista, mas isso não quer dizer que sejam mais religiosas, ou portadoras de maior espírito de fé, que as ignorantes no assunto.

Na HBS, é considerada mais importante a prática, do que a teoria budista, pois Nitiren Shonin já a estudou em nosso lugar, deixando que nós a praticássemos, traçando o caminho que devemos seguir. Também há quem tente imita-lo, porém, levariam vidas para concluir e não sobraria tempo para a prática que é o essencial.

Certa vez um devoto perguntou a Nitiren Shonin se havia diferença entre a sua oração, como um homem humilde e leigo, e a oração feita por um grande mestre como ele. Nitiren indagou-lhe se havia diferença entre uma vela acesa por uma criança e outra por um adulto. Disse, também, que a força do Namumyohorenguekyo não está na palavra da pessoa e sim na fé com que a pronunciamos.

Se a prática da fé fosse tão difícil, e que só uma determinada categoria de pessoas pudesse praticar, apenas essas pessoas conseguiriam salvação. Mas para a oração do Namumyohorenguekyo, todos os seres entre o céu e a terra merecem a paz eterna.

O orientador dos estudos religiosos, na HBS, é chamado de Sacerdote. Ele

é encarregado de ministrar os ensinamentos e, ao mesmo tempo, orientar os fiéis para que não percam o caminho da verdade. A nós, fiéis, cabe proteger e auxiliar o Sacerdote para que possa dedicar0se com afinco à sua missão. Há aí uma ajuda mútua a fim de podermos, todos juntos, praticarmos a fé.

A prática da fé não se resume em pronunciar algumas vezes as orações ou orarmos apenas quando bem entendemos. Mas, sim, em repetir esta prática por várias vezes diante do “Gohonzon” independente das circunstâncias. Aos poucos sentiremos o despertar das boas qualidades em nossos corações, o que constitui a essência de Buda. Essa sensação de bem-estar espiritual aos poucos vai se propagando em toda a nossa casam em nossa rua, em nossa cidade, em nosso país, e foi justamente esse o ideal proposto por Nitiren Shonin.

Ter a fé budista não é querer o bem para si próprio somente, e, sim, visar também aos outros, ao país e a toda humanidade. Como discípulos de Nitiren e de Buda temos grande missão a cumprir, com essa prática da fé tendo como prioridade o que chamamos de Kyoke Shakubuku. (Orientação compassiva para conversão de novos fiéis).

Quando praticamos para nós mesmos, denominamos “prática pessoal” (Jygyo) e quando praticamos em favor de outros: “prática impessoal” (Ketta). A frase “ketta soky jigyo” significa: A prática da fé impessoal já inclui a prática pessoal. Ou seja, fazer para os outros é fazer por si mesmo. Este é um dos princípios básicos da prática da fé que nos condiciona ao acúmulo de virtudes e ao recebimento das bênçãos. No caso de uma empresa, por exemplo, ela progride porque seus funcionários esforçam-se, e, graças a esse esforço, têm um ordenado melhor devido à grande produção da mesma. Seria o mesmo que trabalhar para os outros em benefício de si mesmo.

A Sony (atualmente uma das mais afamadas marcas de artigos eletrônicos) era uma pequena firma, não muito bem situada economicamente, onde então todos os funcionários aceitaram a redução do ordenado visando, somente, o progresso desta. Assim, o espírito de coexistência é a essência da nossa religião: se a sociedade melhorar, a nossa vida melhorará, se o Brasil progredir, todos nós progrediremos também. Para melhor orientarmos sobre esses atropelos da vida é que devemos participar dos cultos nos Templos, e nas residências, e devemos prestar total dedicação ao ato religioso.

Os dez mundos

Divisão de dez estados incorporados em nossa existência seja ela iluminada ou não. Todos os seres por igual possuem todos esses estados e de acordo com a prática e vivência eles se manifestam. Nos dedicamos à prática da fé para proporcionar a manifestação do estado de Bossatsu, estado obrigatório para a manifestação do estado de Buda. Quando manifestamos este estado exercemos a identidade deste ser que se dedica à prática da compaixão de forma incondicional. Vale lembrar que a virtude da oração e vivificação do Namu-kyo permite-nos saltar do estado e condição meramente humana para o estado de Bossatsu.

JIKKAI

São Estados de Espírito ou condição da vida que uma pessoa manifesta no decorrer da sua existência.

 

l ) JIGOKU - Estado de Inferno

Esta condição é caracterizada pelo impulso de destruir a si próprio, assim como, todos e tudo que estiver em seu caminho. Ë uma condição de extremo sofrimento

 

2) GAKI - Estado de Fome

Nesta condição a pessoa é conduzida pelos desejos insaciáveis, não apenas como alimentos e roupas, mas também pelo desejo de obter poder e fama.

 

3) TIKUSHO - Estado de Animal (Irracionalidade)

A insensatez é a característica deste estado. A pessoa é escrava dos desejos do instinto e perde o sentido da razão e da moralidade.

4) SHURA - Estado de Ira

Neste estado a pessoa é dominada pelo egoísmo. desprezando os outros e valorizando só a si próprio, não suportando ser inferior a ninguém, em nada.

 

5) NINGUEN - Estado de Humanidade (Racionalidade)

Este estado é caracterizado pela racionalidade. Nesta condição a pessoa pode se expressar com coerência, controlar seus desejos instintivos através da razão e portar-se como humano.

 

6) TENJYO - Estado de Céu ou de Alegria

E a sensação de bem-estar em todos os sentidos. Porém, todas essas alegrias são efêmeras e desaparecem com o passar do tempo.

 

7) SHOUMON - Estado de Erudição.

Homens de Erudição significam originalmente, aqueles que ouviam o Buda e se esforçavam para eliminar os desejos mundanos para atingir a Iluminação. Porém, o estado de erudição é caracterizado pela não divisão dessa compreensão com os demais.

 

8) ENGAKU - Estado de Absorção

Este estado é chamado de despertar por si mesmo. As pessoas neste estado compreendem algumas verdades, entretanto, as usam somente para próprio proveito.

 

9) BOSSATSU - Estado de Compaixão

O Estado de Compaixão é caracterizado pelas ações altruísticas. Assumem as dificuldades para si e cedem os benefícios aos outros. Procuram salvar o semelhante através de práticas budistas, mesmo que isto lhes custe a própria vida.

 

10) HOTOKE - Estado de Buda

É o estado de compreensão absoluta da Lei da Causalidade

(Causa e Efeito).

Gonjyou & Explicação

 

Enunciado (gonjyou): Locução expressiva de gratidão, respeito e veneração direcionada ao Gohonzon (unidade absoluta de adoração). Objetiva a demonstração da retidão da consciência do praticante ou conscientização desta diante do Gohozen (altar onde se ostenta o Gohonzon). 

Nota-se que tanto o consciente como o não consciente enunciam o mesmo conteúdo, devido a maior importância da prática, daí a conclusão de que, perante ao Gohozen, somos todos iguais e nos encontramos no mesmo nível da fé (de acordo com a nossa capacidade, estágio insuperável pelo intelectual e máximo que podemos exercitar para atingir a iluminação). 

As citações de nomes dos Grandes Mestres decorrem da necessidade de expor a linha histórica que nos leva à retidão, e a quem devemos nos espelhar e agradecer em podermos herdar esta fé que, por esses princípios, representa um coletivo dentro de uma unidade. 

O Buda histórico não surge como citação por estar incorporado ao Gohonzon, assim como todos os outros mestres antecedentes a era Mappou. 

As citações ocorrem a partir do Grande mestre Nitiren Shonin, como líder e enviado* do Buda Original (Primordial) pelo fato de o estilo de prática que se estabelece no nível da fé, centrada ao Gohonzon, ser exclusivo aos seres descendentes de Nitiren Shonin.

*Como Bodhisattva Jyougyou (Sânscrito: Visistacaritra), invocado à cerimônia da Torre

do Tesouro liderando toda a incontável legião de Bodhisattvas primordiais emergidos

da terra, especialmente para receber os ensinos dos oito primeiros capítulos do caminho

primordial do Sutra Lótus (15° ~ 22° cap.) e a exclusividade de expansão na era Mappou.

(Goekou)

As religiões budistas tradicionalmente celebram cultos póstumos. Isto já se fazia também desde a antiga Índia onde o budismo nasceu. É valido lembrar que neste período inicial o budismo revela algumas influências da cultura local. Também é válido lembrar que a prática do culto póstumo baseia-se, e só se toma lógica, a partir do principio da eternidade da alma e seu renascimento. Portanto, religiões que não acreditam no renascimento normalmente não celebram cultos póstumos (No Brasil mesmo religiões que não pregam o renascimento costumam celebrar esse culto, o que para nós é uma incoerência).

No budismo, de modo geral , no sétimo dia, contando a partir do dia exato de falecimento é celebrado o Culto Póstumo de T Dia. Após o culto de T Dia celebra-se o de 2x7 (14° Dia ), 3x7 (21° Dia), 4x7 (28° Dia), 5x7 (35° Dia ), 6x7 (42 Dia ), 7x7 (49° Dia ), terminando este período inicial. Na seqüência há ainda o 100° Dia, 1° Culto Póstumo, 3° Culto Póstumo e outros que podem ser verificados na tabela que publicamos nas páginas 10 e 11 dessa edição.

Na dificuldade de reunir os familiares toda semana, muitas vezes esses cultos no período logo pós falecimento são suprimidos em 7º Dia e 49°Dia. Servem como orientações

básicas os seguintes itens: Há pessoas que ao celebrarem o 49° Dia seguem a crendice popular que diz "não é bom abranger o terceiro mês" isto é; se a pessoa faleceu por exemplo no dia 25 de fevereiro, o 49°Dia naturalmente abrangerá três meses que são fevereiro, março e abril. Fazem um esforço descomunal para agendar o culto póstumo no final do segundo mês para que não seja celebrado no terceiro mês. Não há fundamento nem lógica alguma nesta crendice que deve ser totalmente desconsiderada

A data a ser marcada deve ser sempre que possível próxima da data exata ou antes, principalmente no período até o 49°Dia. O importante é, em primeira instância, celebrar e agendar (com antecedência) com o sacerdote responsável uma data que seja boa para todos e que favoreça uma grande participação. Mesmo que, em casos especiais, a data do culto passe da data de falecimento, não há problema algum, pois na Butsuryu-Shu o período de finados é constante (Jyoubon-Jyouhigan) e oração é que não faltará.

Quanto a datas os Cultos Póstumos se dividem em quatro tipos:

Yoshuu (Celebração Antecipada).

Taiya (Celebração feita um dia antes da data exata)

Shoutou (Celebração em data exata)

Tsuishuu (Celebração Posterior)

 

Também orientamos que não chamamos o Culto Póstumo de Houji, como é o caso de outras facções budistas. Chamamos de Goekou ou Culto Póstumo, que faz parte de um Culto Especial

 

O termo "Ekou"

A palavra Goekou tem o significado: Go (prefixo de respeito e sublimação aquilo que vem depois deste prefixo). Ekou (Transferir virtudes). Normalmente quando usamos o termo Goekou nos referimos aos cultos ou orações póstumas. Entretanto, o termo em si tem significado universal e não se restringe apenas aos falecidos. O Grande Mestre Nissen Shonin numa de suas citações ensina:

“Conscientizemos que toda prática religiosa(Gohoukou) tem o Ekou em primeiro plano. Para orar o Odaimoku, ouvir os discursos religiosos e combater as heresias faça Ekou” .(Col.M. Nissen vol.14.p.56),(HBS NEws n.8)

ZEN-BUDISMO

LEIS E PASSOS DO CAMINHO DO MEIO

01. Tem fé. 02. Cumpre os teus deveres e estuda com afinco. 03. Honra os teus pais. 04. Respeita os virtuosos. 05. Honra os mais velhos. 06. Ajuda a tua Pátria. 07. Sê honesto e verdadeiro em todas as circunstâncias. 08. Ouve os conselhos dos mentores. 09. Faz o melhor uso possível da comida e da riqueza. 10. Segue os exemplos dos bons. 11. Mostra a gratidão e paga bondade com bondade. 12. Sê justo em todas as transações. 13. Liberta-te do ciúme ou da inveja. 14. Abstém-se de escândalos. 15. Sê suave na fala e nos gestos e não cause dano a outros. 16. Suporta os sofrimentos e desgostos com paciência e humildade.

ZEN-BUDISMO A maior ambição de todos os budistas é atingir algum dia a iluminação (bodhi), como aconteceu com o buda debaixo de sua figueira em Bodh Gaya, há 2500 anos. Dentro do budismo, porém, consideráveis diferenças de opinião sobre o que essa iluminação implica e como se chega a ela. Dentro da tradição do budismo Mahayama (uma das tendências do budismo que significa: caminho da ajuda mútua), surgiu na China uma escola especial de meditação que, mais do que qualquer outro movimento, realsava a iluminação como o verdadeiro núcleo do budismo. Essse movimento aos poucos se espalhou para a Korea e o Japão, e ficou conhecido, no Ocidente por seu nome japonês, Zen, que significa "Meditação". Como hoje em dia é mais fácil estudar o zen-budismo no Japão do que na China, vamos nos concentrar no Zen-budismo japonês. No Japão essa vertente budista conta hoje com cerca de 20.000 templos e 5 milhões de adeptos, entre monges e leigos.

O Que é o Buddhismo?

É difícil assumir a tarefa de explicar e definir uma religião. Mais do que ser uma tarefa complexa, eu penso que tal explicação é, de todo, relativa e limitada. Ela torna-se relativa porque diante da realidade definitiva da Vida - e em última análise - a Religião não está nas organizações religiosas; a Religião nem mesmo forma um indivíduo. A Religião É o indivíduo. Essa explicação torna-se limitada também porque, dependendo do modo como um indivíduo entrou em contato com uma religião, sua visão poderá ter ilimitadas nuances, algumas mais sábias, outras mais obscuras e ignorantes.

Um buddhista, dentro de suas limitações, é o Buddhismo. Cada buddhista, portanto, mesmo que não perceba completamente a natureza da religião que abraça, torna-se uma representação do Buddhismo. Todo e qualquer praticante religioso, leigo ou sacerdote, ortodoxo ou heterodoxo, define em si mesmo sua Religião. E mesmo o céptico - que em verdade não passa de um outro tipo de religioso - define em sua aparente dúvida a Religião no seu aspecto mais fundamental: o de ser um esforço de um ser consciente em atingir a união com as Verdades Universais, e assim superar aquele sentimento que todos nós temos, o sentimento de estarmos perdidos em um lamaçal de decisões incertas, e de planejamentos frustrados.

Mas, afinal, eu creio que uma definição do Buddhismo pode ser dada. E eu, ainda que não seja um nome importante no Buddhismo sob quaisquer de suas escolas, posso dar essa definição. Posso fazê-lo porque sou um ser humano com experiências de vida árduas e fundamentais, e porque estou plenamente integrado com meu esforço de aprimoramento pessoal. Estas duas simples condições bastam para me permitir o direito de analisar tal religião. E para que eu possa fazer isso, não são necessários títulos; não são precisos poderes transcendentais ou reconhecimento oficial. Basta que eu mantenha, como tenho feito há mais de 18 anos, os simples ditames do próprio Siddharta Buddha: "Siga sempre aquilo que seja conforme ao vosso esforço de reflexão, naquilo que experimentardes e reconhecerdes razoável, e no que for conforme ao vosso bem e ao bem alheio." (Kalama Sutra - tradução livre) Agindo assim, as definições são possíveis. E todos nós temos direito de criá-las a partir de nossa experiência e discernimento. Quanto àqueles que ouvem ou leiam tais definições, bastam que se mantenham atentos à sua própria experiência e discernimento, e reflitam com cuidado e candura se o que digo é justo e razoável.

O Buddha

Primeiramente, temos que procurar o espírito do Buddhismo, sua essência, sua realidade original. E tal realidade se chama Siddharta Gautama, o Buddha. Não falo de um ser divino ou um sábio intocável; não falo ainda da figura envolta em tantos mitos sagrados do Mahayana. Falo de um ser humano que, por força de seu próprio esforço de auto-regulação, logrou superar as terríveis dificuldades de compreensão correta do Caminho que leva ao equilíbrio e à simples felicidade interior. Gautama nasceu em data ignorada, em torno do século VI a.C., em Kapilavastu, norte da Índia, no sopé do Himalaia. Era filho de Sudhodhana, um nobre e pertencente à assembléia que governava o pequeno clã dos Shakyas tributário do reino vizinho de Kosala, e de Maya, sua esposa. Gautama Buddha cresceu em meio à classe que pertencia, tomou como esposa a jovem Yasodhara e teve um filho de nome Rahula. Embora devesse ser o herdeiro de seu pai, aos 29 anos, após uma experiência muito forte sobre as três mais difíceis realidades da vida física (a Doença, a Velhice e a Morte), abandonou seu status e condição e partiu em busca de uma resposta às suas dúvidas.

Tornou-se discípulo dos ascetas Alara Kalama e Uddhaka Ramaputra, e transformou-se num yogue. Depois, partiu deste caminho e tornou-se por seis anos (segundo a tradição) um asceta eremita junto com outros cinco companheiros. Após muitas mortificações e sofrimentos por privações na pretensão de superar os limites da carne, percebeu em determinado momento que tais exageros não eram, afinal, necessários. A partir deste instante compreendeu que o meio mais razoável para a superação dos limites da carne é o que chamou de "Caminho do Meio", ou seja, uma atitude de equilíbrio entre a prática espiritual e a vida mundana, as necessidades do corpo. Resolveu buscar a resposta através do Dhyana, a profunda atitude introspectiva da Meditação. À sombra de uma árvore na manhã de um certo dia, no bosque de Bodhigaya, iniciou uma prática de meditação profunda, e se propôs a permanecer em Dhyana até atingir a completa Iluminação. Ainda segundo a tradição, à tarde deste mesmo dia Gautama atingiu o Completo Entendimento, e tornou-se o Buddha.

A partir deste momento sua vida foi dedicada a transmitir o sentido do que experimentou, e demonstrar que qualquer um pode atingir o mesmo objetivo. Formou ao redor de si um numeroso grupo de praticantes, homens e mulheres, e continuou a ensinar até morrer em torno dos 80 anos.

A Argumentação Budista

Gautama Buddha desenvolveu um sistema simples de argumentação, sob o qual ele baseava suas considerações mais fundamentais para analisar tanto a natureza do sofrimento humano como as possibilidades que o Homem tem de superar estes limites físicos. Buddha propunha uma análise dos motivos que levam um ser consciente a se sentir tão incapaz de lidar com a vida sem angústias e neuroses; no aspecto psicológico humano ele afirmava que, a despeito do que se pode imaginar, é possível se viver livre de angústias e neuroses. No aspecto místico e espiritual ele afirmava ainda mais, que em um certo ponto o desenvolvimento e a consolidação do equilíbrio mental pode levar o ser humano ao ápice de sua consciência, atingindo o que na tradição oriental chama-se Completa Iluminação, um estado de ser tão liberto de angústias que é considerado o limite do que um espírito humano pode chegar em termos de auto-organização e sabedoria. Seguindo ainda a argumentação mística espiritual oriental, um ser que chega neste ponto livra-se do Samsara, a Roda de nascimentos e mortes ilusórias e irregulares, e atinge o Nirvana, o Absoluto.

Entretanto Buddha não "promete" nada a ninguém; ele não faz argumentações baseadas em fé cega, ou no oferecimento de uma vida melhor adquirida fácil e mecanicamente por todos os que, ignorando suas próprias responsabilidades, apeguem-se às suas palavras. Ele propõe uma definição de algo que ele mesmo experimentou, e conclama a todos os seres humanos a se esforçarem nesta mesma busca, trilhando o mesmo caminho, mas com seus próprios pés. Em suma, Buddha não é um vendedor de produto pré-fabricado; ele apenas aponta um caminho, e o quanto cada um de nós vai percorrer deste caminho, depende de nossa capacidade, e não de Buddha.

O extremo brilhantismo da argumentação de Buddha, em minha opinião, se evidencia ao observarmos dois pontos: primeiro, que esta argumentação se baseia numa percepção do quanto o cotidiano condicionado e viciante que o ser humano criou para si é algo artificial e extremamente inadequado, mas que já está tão arraigado no padrão social humano que a humanidade sente-se incapaz de livrar-se dele, embora invariavelmente lamente estar "presa" a ele; segundo, que toda solução para tal impasse está na consciência, no exercício do discernimento, na depuração de nossa psicologia, de nosso modo de ver o mundo.

Penso que Buddha foi um pioneiro mesmo entre os grandes nomes da espiritualidade humana, um surpreendente "psicólogo" e "terapeuta", e, muito mais do que isso, um Sábio cuja maior contribuição à humanidade foi ter reforçado ainda mais a compreensão de que o caminho para a Felicidade vem da LIBERDADE religiosa, e não da prisão religiosa. A liberdade que surge com a responsabilidade de assumirmos EM NÓS MESMOS a consciência religiosa, a ética auto-reguladora. Como diz um mestre Zen atual, "Buddha não era buddhista". Buddha era, antes de mais nada, livre.

Na tradição chamam-se "Quatro Nobres Verdades" os quatros pontos básicos que fundamentam a argumentação de Buddha. Estas nobres verdades são:

1 - Toda existência senciente implica em sofrimento (Duhkha). Por "sofrimento" devemos entender que, de uma forma essencial, todo ser está mergulhado em algum tipo de ignorância consciencial. Isso implica que a maioria dos seres humanos "sofrem" por não saberem lidar com a existência de forma equilibrada, seja nas experiências consideradas "prazerosas" ou nas consideradas "dolorosas". O sofrimento ignorante é fundamentado pela angústia da frustração egóica, que se prende em um sem-número de expectativas lineares e ilusoriamente permanentes. Portanto, nós seres humanos sofremos de uma "doença" psico-espiritual, de consciência, que nos leva a lidar com os contatos perceptivos de forma frustrante.

2 - O sofrimento ocorre pelo desejo ignorante (Trshna). Aqui temos a base de todo processo ilusório no qual os seres sencientes estão presos. No plano humano, o desejo ignorante ocorre em função de um estado de delusão, de necedade, ou "não-sabedoria" (avidya). Esta condição é um estado natural nos seres em sua origem, mas que não é impossível de ser superada à medida em que um ser humano esforça-se em direção à reflexão. O desejo pode ser classificado em três tipos, baseados nos três modos de identificação egóica: Apego (o desejo projetado como forma de anseio passional), Aversão (o desejo projetado como forma de rejeição odiosa) e a Indiferença (os apegos e aversões desviados repressivamente em uma atitude de falso alheamento).

3 - É possível superar o sofrimento ignorante. Ou seja, embora os processos racionais e sociais sejam muito viciantes e arraigados em nosso complexo psico-emocional, Buddha afirma que eles podem ser superados, e que uma forma nova de visão e percepção do mundo é possível.

4 - O modo de superação do sofrimento ignorante pode ser atingido com o Caminho Óctuplo. Buddha então delineou oito aspectos do esforço de auto-regulação humana, que são:

1. Ditthi - Compreensão equilibrada 2. Sankappa - Pensamento equilibrado 3. Upaya - Palavras equilibradas 4. Kammanta - Ação equilibrada 5. Ajiva - Comportamento equilibrado 6. Vayama - Esforço equilibrado 7. Sati - Atenção equilibrada 8. Samadhi - Meditação equilibrada.

Diante da necessidade de explicar o sentido da experiência de Plena Sabedoria, Buddha viu-se obrigado a aludir ao estado de equilíbrio de forma indireta, paradoxal e às vezes negativa. Desse modo, o aspecto sutil da compreensão espiritual poderia ser pelo menos inferido, ainda que jamais completamente explicado por palavras. Isso evidentemente provocou dúvidas e questionamentos por parte de seus discípulos, mas Buddha sempre incentivava tais questionamentos como importantes para a prática do discernimento correto.

No caso do Caminho Óctuplo, fica claro ao observador que as 8 condições são por demais genéricas. Dependendo da expectativa de cada um, o termo "Equilibrado" ou "Correto" torna-se bastante amplo. Uma solução aparentemente ideal seria simplesmente seguir as definições ortodoxas, de monges ou líderes buddhistas. Mas em geral tais definições não ampliam muito a compreensão do sentido do termo, pois tendem a se manter presas aos estreitos ditames do dogma. Mas se atentarmos para o fato do quanto o pensamento de Buddha depende da compreensão pessoal e individual, a definição do termo "Correto" ou "Equilibrado" só poderá ser completamente explicada se compreendermos que o ato de "correção" e "equilíbrio" depende de nosso esforço de ampliação do trinômio básico da Consciência amadurecida, ou seja, do discernimento, discriminação e da atenção.

Assim, o "correto" em cada um dos oito caminhos é o que nós podemos compreender - a partir do nível de sabedoria que estamos - do que é correto, do que é equilibrado. Quanto mais maduros e desenvolvidos em nossa prática espiritual, mais equilibrados e corretos serão nossos pensamentos, compreensão, palavras, conduta, trabalho, esforço, atenção e meditação. Tentando ser mais claro, transcrevo um Conto-Koan Zen:

Certo dia um Mestre falava para seus alunos sobre a natureza da Perfeição. Um dos discípulos, céptico quanto a possibilidade de poder realmente algo chegar à perfeição concretamente e incapaz de compreender o sentido do que o Mestre falava, observou próximo ao grupo um cesto de maçãs e disse ironicamente:

"Mestre, fiquei fascinado com sua explicação sobre a Perfeição. Poderia o senhor, para ilustrar o que acabou de dizer, me dar uma maçã perfeita?"

O Mestre calmamente olhou dentro da cesta, retirou uma maçã e entregou ao aluno. Pegando-a, este viu que a fruta estava com uma parte podre num dos lados. Olhou para o professor e disse arrogante:

"Essa é a perfeição de que fala? Esta maçã tem uma parte podre!"

"Sim," replicou o Mestre. "Mas para teu nível de compreensão e discernimento, esta maçã podre é o máximo de maçã perfeita que poderás obter..."

Assim, creio que fica claro o aspecto gradual da prática óctupla. Ela depende do nível de compreensão de quem a pratica, e não de definições morais do quão perfeita esta prática tem que ser.

Evidentemente, o aspecto mais comum na prática espiritual religiosa vem a ser seu enfoque moral. Isso significa que invariavelmente quase todo praticante religioso tende a uma interpretação moral dos preceitos e ditames de sua prática. Não afirmo absolutamente que tal atitude seja errada, mas penso que o problema está em que a compreensão moral da maior parte das pessoas é baseada mais em temores, proibições e mesmo preconceitos do que uma consciente auto-regulação.

Neste aspecto, o ato pseudo-moral tende sempre a ser rígido demais, impositivo e cerceante. Ele impõe regras delineadas como obrigações, e analisa conceitos sob um prisma duramente julgador. Os religiosos de todas as tradições, ao longo dos milênios de história humana, agiram quase sempre baseados exatamente na mesma presunção: a de que a população leiga e devota, para se manter dentro dos dogmas, precisa de alguma forma temer os castigos por não se agir da forma "correta", e ansiar pelas bênçãos se agir de acordo com a moral. A mesma postura, algumas vezes ainda mais rígida, é indicada para os próprios sacerdotes. A justificativa comum vem a ser de que, se for dada liberdade interpretativa ao indivíduo, o caos se instalará no grupo religioso, e a instituição ficará seriamente ameaçada. Outra justificativa é a de que os líderes religiosos que porventura sustentem a instituição religiosa são pessoas com autoridade e competência, e se estes líderes mantém os dogmas, é porque eles são válidos.

Embora no Buddhismo este sério problema de distinção sábia do que vem a ser a Moral também ocorra, a margem de debate é bem maior do que em muitas outras religiões. Pois, até onde pode se depreender dos textos e discursos mais originais de Gautama Buddha, este foi um forte defensor do livre-pensamento, baseado apenas na disciplina reflexiva e auto-reguladora dos preceitos. Em um de seus mais brilhantes discursos (Kalama Sutra), Buddha afirma que toda dúvida e reflexão é razoável, e que jamais devemos nos basear em alguma afirmação apenas por crer em autoridade, maioria, enlevo, divindade ou pretensa competência de outrem. A reflexão profunda, o esforço de compreensão direta e da natureza - essa sim MORAL - real das afirmações é o que deve nos sustentar para finalmente agirmos espiritualmente em relação aos preceitos.

Isso nem sempre é fácil para a maioria. Neste momento, sim, surge o professor ou mestre. Este tipo de ser humano nem sempre é uma autoridade, mas com certeza é uma pessoa experiente e sábia, conhecedora da filosofia que pratica, e que sabe distinguir e incentivar a reflexão própria e digna dos preceitos. Ao saber julgar corretamente o que aquelas pessoas menos sábias devem fazer para praticar os ditames do Dharma, o professor age em conformidade com aquilo que é mais útil para o real, justo e maduro crescimento destas pessoas.

A seguir dou pequenas explicações dos oito caminhos. Note que a ORDEM destes pontos não devem ser encaradas de maneira excessivamente rígida ou mecânica.

1. Atenção Correta - Sabendo-se guiar pela atenção o indivíduo é capaz de perceber o sentido das coisas, sem apegar-se a expectativas inúteis. A Atenção portanto é o processo de depuração gradual da Mente. Mantendo-se pronto a perceber as coisas sem julgamentos ou projeções baseados em nossos vícios de interpretação, a pessoa caminha cada vez mais para a correta atenção.

2. Compreensão Correta (ou Equilibrada) - No processo de discernimento e plena atenção, a Compreensão Correta vem a ser a maneira de se perceber as coisas de forma clara, como elas são. Como no conceito e termo Hinayana "Vipassana", é a experiência de entendimento mais ampla possível, em seu sentido universal.

3. Pensamento Correto - O processo mental tranqüilo, relaxado. Os pensamentos são fruto não de anseios "stressantes" ou desejos desenfreados, mas de um fluxo natural de elaboração perceptiva.

4. Palavras Corretas - A partir de uma atitude mental equilibrada, e de uma compreensão madura, as palavras tendem naturalmente a ser usadas com suavidade, justeza e correção. Assim, quanto menos um praticante demonstra agressividade, preconceitos, grosseria, imaturidade e vaidades através de suas palavras, mais o seu equilíbrio é evidente. Note-se que isso não é uma REGRA, mas uma CONSEQUÊNCIA.

5. Ação Correta - O praticante aqui deve perceber o modo com que age. Seus atos, se feitos com equilíbrio, não resultam em angústias, ou em sentimentos de fracasso. Os atos são feitos com o que eu chamo de Três Modos Equilibradores: Desprendimento, Paciência e Responsabilidade.

6. Comportamento Correto - Diante do processo de vida equilibrado, torna-se conseqüente que a pessoa trabalhe em atividades equilibradas e prazerosas para si. Sem tensões ou incertezas, o indivíduo decide pela atividade que mais lhe causa gosto, trabalha com disposição, e seu tipo de trabalho será construtivo. Sua realização pessoal no correto meio de vida é maior do que sua ambição material, portanto ele não se corrompe, não rouba, não age com crueldade. Na tradição buddhista existem textos que preconizam trabalhos "corretos", mas evidentemente tais textos devem ser encarados simplesmente como manifestações culturais e morais típicas do dogma.

7. Esforço Correto - Para que todos os preceitos óctuplos possam ser vivenciados, o praticante deve se esforçar em sua prática. Aqui fala-se do modo mais justo de se buscar o equilíbrio. Como afirmou Buddha, práticas fanáticas, agressivas ao corpo e ao espírito, irregulares, fantasiosas ou feitas de forma imatura são tipos de esforço incorreto. O esforço correto produz resultados obviamente descondicionadores, prazerosos e de desenvolvimento de nosso discernimento.

8. Contemplação Correta - O exercício da contemplação ou meditação deve ser entendido de forma suave, e praticado em seus dois níveis: o da ATITUDE MEDITATIVA e o a TÉCNICA MEDITATIVA. Como no preceito do Esforço, aqui não se deve agir em extremos. A Meditação não pode ser vista como uma fórmula rígida, e não pode ser praticado com um formalismo inútil; ela é uma prática fluida, que deve ser ampliada para o nosso dia-a-dia. Assim, caminhar é meditar, pensar é meditar, dirigir um carro, comer ou mesmo ver televisão são atos que devem ser vividos sob um prisma contemplativo. Diante de uma prática correta da filosofia Contemplativa, chegamos ao ápice da nossa potencialidade perceptiva equilibrada.

O Processo de compreensão do Buddhismo depende muito da atenção e da paciência. O aspecto mais claro do processo espiritual buddhista é que ele não pode ser encarado de forma racional, ou mesmo devocional. Mesmo que posteriormente a pessoa opte por reverenciar uma divindade, um Buddha Mítico ou um Bodhisattva, ela não pode jamais se perder no aspecto tipicamente emocional de tal escolha. Se o fizer, perderá o sentido original do exercício auto-organizador buddhista. Como na tradição ortodoxa Hindu, no Buddhismo temos que atentar para o desenvolvimento da compreensão religiosa; este desenvolvimento parte do aspecto SAGUNA (com-forma) - ou seja, do aspecto devocional, emocional e mítico, pleno de respostas rituais e simbólicas, e chega ao aspecto NIRGUNA (sem-forma) - ou seja, o sentido abstrato e pleno do exercício espiritual, onde o praticante funde-se com sua devoção ao ponto de transcendê-la.

O ensinamento de Buddha depende da psicologia argumentativa típica de seu sistema de pensamento. Mesmo sendo um sábio atento aos aspectos simbólicos e religiosos de sua época, Buddha era obviamente um pensador sofisticado, e sua filosofia é PERENE, ou seja, ela não é menos sofisticada agora, em 1998, do que foi em cerca de 563 a.C. Assim, temos que sempre estar atentos ao mais essencial do que este grande homem disse. Mesmo com a posterior criação Mahayanista do panteão de Buddhas Divinos, Bodhisattvas e Divindades ou do enfoque altamente monástico da escola Theravada, mesmo com o lapso de tempo entre suas palavras verbalizadas e a escrita das mesmas em textos Theravada e Mahayana, mesmo com o risco comum a todas as religiões das interpolações, criação da mítica sagrada em torno de seu nome e do que pretensamente disse, ainda assim podemos - e devemos - discernir o mais profundo discurso de Gautama.

As massas simples e de entendimento limitado mantêm-se nas práticas devocionais, os monges perpetuam diligentemente a tradição e os ritos, cristalizados e sustentados ao longo dos 2500 anos de existência desta bela religião, mas em meio a isso os praticantes, leigos ou não, precisam sempre buscar mais do que a simples confirmação dos ritos, ou a cega crença nos mitos; eles precisam buscar a CONSCIÊNCIA de si mesmos, a felicidade implícita no Caminho do Meio, no equilíbrio de mente e espírito. Assim, caminharemos em direção ao Dharma, e não ao simples Dogma.

OS PRECEITOS FUNDAMENTAIS.

Embora as escolas buddhistas possuam enfoques particulares em relação aos preceitos, tanto para os monges quanto para os leigos, que podem chegar a 10 ou 12 itens, podemos afirmar que os preceitos fundamentais para os praticantes são cinco:

1. Eu me comprometo a abster-me de tirar a vida de outro ser. 2. Eu me comprometo a abster-me de tomar algo que não me seja dado por outrem. 3. Eu me comprometo a abster-me de práticas sexuais não saudáveis. 4. Eu me comprometo a abster-me de dizer inverdades e a não dizer a verdade em ocasiões inoportunas. 5. Eu me comprometo a abster-me de intoxicar-me com bebidas e substâncias insalubres.

Como é perceptível, o sentido básico dos Cinco Preceitos Fundamentais vem a ser o de levar a pessoa a COMPREENDER o erro, e não a simplesmente proibir-se de fazê-lo. Tudo o que é apenas reprimido torna-se uma neurose, e portanto acaba sendo canalizado negativa e ignorantemente de outra forma pela mente. Uma pessoa que age em função de "proibições" não age sinceramente, apenas finge que age assim. Ela continua desejando, continua presa à ignorância de seu erro. Ela fala inverdades, mas ilude-se que não, reprimindo-se; ela odeia e até mesmo é capaz de matar, mas ilude-se que não, reprimindo-se; ela pratica o ato sexual de forma agressiva ou inconsistente, luxuriosa e não prazerosa - ou quer fazê-lo, mas ilude-se que não, reprimindo-se; ela ambiciona aquilo que não lhe pertence, mas ilude-se que não, reprimindo-se; ela intoxica-se - ou quer fazê-lo - com alimentos, drogas e bebidas, mas ilude-se que não, reprimindo-se.

O que pode nos ajudar a compreender o sentido dos preceitos? O bom senso advindo do correto discernimento, da honestidade pessoal e da força de caráter. Tais percepções surgem naturalmente a partir da prática de ATITUDE equilibrada, que está caracterizada no caminho óctuplo.

Como disse, existem outros preceitos, criados em função dos aspectos religiosos institucionais. Não me cabe aqui questioná-los, uma vez que tais preceitos expressam os aspectos tipicamente religiosos encontrados em todas as religiões. São preceitos de fundo moral, ou dogmático, ou ainda simplesmente organizador. Assim, temos mais três preceitos monásticos (para os monges):

6. Eu me comprometo a abster-me de me alimentar à noite. 7. Eu me comprometo a abster-me de usar adornos ou perfumes. 8. Eu me comprometo a abster-me de dormir em camas muito macias, e sim em leitos frugais.

O TRÍPLICE REFÚGIO.

Esta fórmula é o mantra recitado por todos os praticantes, e é uma forma de rito verbal de admissão à pratica buddhista. Ela diz, em português e no original em sânscrito:

Eu busco refúgio em Buddha. - BUDDHAM SHARANAM GACCHAMI (o princípio búdico presente em todos nós)

Eu busco refúgio no Dharma. - DHARMAM SHARANAM GACCHAMI (as Verdades Universais, a Sabedoria).

Eu busco refúgio no Sangha. - SANGHAM SHARANAM GACCHAMI (os homens e mulheres de boa vontade, e praticantes espirituais - no sentido religioso, a comunidade buddhista).

Terminando este ensaio, penso que embora o processo de definição da doutrina Buddhista possa ser muito mais ampliado, por outro lado na verdade eu já usei por demais as palavras na tentativa de esclarecer algo que depende profundamente da vivência pessoal.

E então, afinal, retornamos à questão original: o que é o Buddhismo?

Na verdade, quem pode responder? As respostas variam conforme o interpelado, e são tão pessoais quanto o número de praticantes desta tradição espiritual. Particularmente tenho apenas uma conclusão em mente: a despeito do que você ouça e leia, a despeito das orientações e determinâncias que seu esforço de prática possa vir a levá-lo, apenas um aspecto jamais deve ser por você negligenciado: o determinante final de sua compreensão do Dharma é o SEU discernimento, a sua própria consciência discriminativa, a sua clareza de Alma. Portanto, não perca tempo tentando enxergar seu espírito através das afirmações de outros, mesmo que estes sejam considerados grandes sábios ou até mesmo santos; olhe para si mesmo, e compreenda que a Verdade já está ali revelada: "Tu és Buddha".

Basta termos olhos para vê-la corretamente.